domingo, 7 de setembro de 2008

ENCANTO VERMELHO

A manhã acorda-te, envolta nos lençóis amarrotados da noite intensa, o corpo ainda nú arrepia-se ao toque do primeiro raio de Sol. A teu lado, uma rosa vermelha espera que a guardes como lembrança desse momento inacabado.

À ESPERA


Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher despir-se de verdade... A verdadeira nudez tem aqui um significado diferente. É muito mais intenso assistir a uma mulher desabotoar as suas fantasias, as suas dores, a sua história, os seus sonhos...

O MESTRE


O mestre não se fez para rir. É de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos. Pertence-lhe ser extravagante, defender ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se, ele próprio, de comodidades e de bens, viver incerta a vida. A ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo. Não verá no talento do aluno um inimigo natural, mas o melhor que lhe podem conceder.

VÉRTICE


Quero escrever no teu corpo, com língua vestida de prazer, na pele aveludada do sentir, com lábios de desejo. Quero escrever com letrinhas pequenas, para saborear cada pedaço, sentir cada gemido…

SEDE


A água e a sede fazem parte, ambas, de nossa natureza humana e divina. No episódio evangélico, aquele que pede de beber diz possuir uma água que mata todas as sedes, e aquela que teria água para oferecer revela uma sede que vem do fundo da alma. Água e sede misturam-se e entrelaçam-se. Ninguém é só água, ninguém é só sede. Ninguém é água o tempo todo, ninguém é sempre sede. Todos somos essa mescla indefinível de água e sede. Na relação entre o divino e o humano, toda a sede é saciada na busca de uma intimidade crescente e envolvente.

OS PÉS DE VÉNUS


É propriedade do amor o ser violento e é propriedade da violência a não durabilidade. O amor acaba-se em nós, não por nossa vontade, mas porque tem por natureza acabar, nem tudo espera por nós. Quando amamos, é por força, porque a formosura, que nos inclina, vence-nos. Também é por força quando não amamos porque, uma vez rotos os laços, ficamos de tal sorte livres que, ainda que queiramos, não podemos voltar a eles. Assim não está na nossa mão o não amar, nem também o amar. O coração, por si mesmo, acende-se, embebeda-se e nós não o podemos inflamar, nem extinguir-lhe o ardor.

SESTA


A fadiga que esmaga um corpo depois de oito ou dez horas em frente de um volante ou de um dia inteiro na faina do campo é um crime contra o Deus que nos criou à sua imagem, um sacrilégio contra a partícula de fogo eterno que palpita por favor dos deuses em cada um de nós.

OLHAR DE MAR


Do que precisas, acima de tudo, é de te não lembrar do que eu te disse. Nunca penses por mim, pensa sempre por ti. Mais valem todos os erros que possas cometer, ao abrigo do que pensaste e decidiste do que todos os acertos, se foram meus. Os meus conselhos devem servir para te opores a eles. É possível que depois dessa oposição, venhas a pensar o mesmo que eu mas, nessa altura, já o pensamento te pertence também. São meus discípulos, se algum tiver, os que estão contra mim, porque guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejo transmitir: a de se não conformarem.

OLÍVIA

Mulher, tu és o fogo que em ti levas, o calor que irradias, a luz que em ti resplandece. Mulher, tu és também um oásis neste deserto que mora em mim. Em teu peito sinto forças para poder descansar. Mulher, teus olhos são a luz da mais intensa paixão, quente como as tardes de Agosto, com o mar por perto. A ternura que ofereces alimenta meu corpo e todos os meus sonhos. Meus dentes mordem estes meus lábios na sede de te ter, cortando as palavras que não consigo dizer-te. Só te quero beijar.

MATREIRICE

Brinca muito e dorme cedo, menina rabina, que tua sina é ter sempre sonhos bons. Olha, bombom, os pássaros no céu a voar, e põe um véu de rosas nos teus cabelos.Não deixes nunca de fazer caretas a quem passa na rua. Solta essas palavras matreiras, de tantos encantos. Tudo que sai dessa boca, tudo que sai dessa alma, cheira a mel, transpira alegria. E sente-se a felicidade de um anjo, um daqueles que da vida não tem medo. Um anjo que dorme cedo, porque tem a sina de fazer aos outros, que o rodeiam, ter muitos sorrisos e muitos sonhos bons.

RENDA DE PEDRA

Mão firme na pedra macia. O olhar fixa-se na renda que o talento moldou, tudo está dissolvido em requinte. Deus percorre-lhe as entranhas, misturando-se com o sangue das mãos que teceram esta porta. As maravilhas de ver e de interpretar enchem as retinas admiradas. Meu cérebro traduz tudo em linguagem pictórica. A vontade de lhe tocar absorve-me a concentração. Soltam-se pinceladas num processo tão complicado quanto absurdo, escultura fina extraída do brilhantismo, bem claro e iluminado, do pensamento. Mensagem estranha, mas empolgante, absolutamente única. Alguém superior lhe regula as sombras e os brilhos, que cada mente vê diferente mas nunca indiferente. Absolutamente ímpar e irresistível!

LIBERDADE

GAIVOTA

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo cualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

Ermelinda Duarte

SETAS DE ORVALHO

O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia